8 de Março: para não dizer que não falamos de flores

“Dizem que a mídia só faz o que o público pede. Não, eles fazem o que as empresas e os anunciantes querem e fazem parecer que a culpa é nossa.”

(Jennifer Pozner, no documentário Mulheres na Mídia, 2014)

Todas as questões envolvendo a condição social da mulher dariam farto material para muitos livros e tratados. Ainda assim, há quem diga que discussões envolvendo feminismo, questões de gênero ou direitos da mulher seriam já ultrapassadas, pertencentes a uma época quase remota e que o espaço da mulher nos dias de hoje – ao menos nas sociedades “ocidentais” – já estaria equiparado ao do gênero masculino.

Esse discurso é abraçado até mesmo por uma parcela de mulheres que diz não “ver sentido” nos movimentos feministas atuais. Talvez elas nunca tenham vivenciado diretamente a privação da liberdade de fazer escolhas pessoais sem interferências externas, do seu acesso à educação e a seus direitos fundamentais. Porém, não se pode fechar os olhos para o imenso contingente de mulheres que ainda sofrem de forma violenta o cerceamento de seus direitos, que são obrigadas a cumprirem papéis que não escolheram ou para os quais não estão preparadas, que sofrem agressões físicas e morais, que são condenadas a diversas penas pelo simples fato de serem mulheres.

As provas desta mentalidade estão presentes tanto em situações de violência extrema, encontradas em qualquer edição diária de jornal, quanto nas pequenas “sutilezas” do cotidiano – como os milhares de assédios considerados “inofensivos” sofridos por mulheres de todas as classes sociais, culturas e perfis ao sair às ruas todos os dias. Como os vagões femininos nos metrôs das capitais, que deixam claro que a primeira resposta da sociedade a um quadro de violência de gênero é o isolamento da vítima ao invés da punição do agressor. Como a existência de Delegacias da Mulher, uma tentativa (muitas vezes sem sucesso) de evitar que vítimas de abuso sejam humilhadas e criminalizadas pelas próprias forças policiais que as deveriam defender. Como o fato de uma lei específica contra a mortalidade de mulheres por agressões domésticas, a Lei Maria da Penha, ter entrado em vigor somente em 2006, inspirada no caso extremo (mas, infelizmente, longe de ser inédito) da biofarmacêutica brasileira vítima de violência e de duas tentativas de assassinado por parte do marido, que a deixariam paraplégica e renderiam a ele apenas dois anos de prisão em regime fechado.

Caso todas essas situações não sejam suficientes para mostrar a necessidade de se discutir, ainda hoje, o empoderamento da mulher na sociedade, existem números que falam por si: no Brasil, a taxa de feminicídios é de 4,8 para 100 mil mulheres – a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Já o Mapa da Violência sobre homicídios entre o público feminino mostra que, embora o número anual de homicídios de mulheres brancas tenha caído 9,8% entre 2003 e 2013, os assassinatos de mulheres negras cresceram 54%, passando de 1.864 para 2.875. Do total de feminicídios registrados em 2013, 33,2% dos homicidas (ou seja, um terço deles) eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas.

Como vemos, os avanços recentes da luta pela igualdade de gênero não foram ainda suficientes para mudar uma cultura de violência arraigada há séculos em nossa sociedade, expressa por novo crescimento nos casos de agressões e mortes, especialmente entre as mulheres negras. Além desses, há muitos outros indicadores que denotam a urgência da discussão a respeito do assunto, indo desde a simples distribuição de tarefas domésticas até desníveis salariais no mercado profissional.

Amanhã, 8 de Março, é um dia de reflexão e luta para que essas questões continuem sendo discutidas até que todas as mulheres tenham a garantia de que sua condição feminina não implique em uma série de riscos sociais a que os homens não estão expostos. Como em todos os anos, muitas ações de conscientização estão sendo preparadas ao redor do mundo – sendo a Greve Internacional de Mulheres uma das mais abrangentes. Procure se informar e participar de alguma forma, diretamente ou expressando seu apoio. O modo pelo qual tratamos o outro (ou a outra), ainda que não pertençamos ao mesmo grupo populacional ou de gênero, diz muito sobre nós mesmos e sobre como escolhemos construir uma sociedade. Assegurar o espaço de afirmação, de direitos e de vida a uma parcela decisiva da população mundial é fundamental para que possamos mudar os rumos e história de todos. Vamos pensar – e agir – sobre isso.

Dica de documentário: separe 57 minutos do seu tempo para assistir ao ótimo  Mulheres na Mídia (2014), que expõe os mecanismos de exploração da imagem feminina com fins mercadológicos e seus efeitos nocivos sobre as mulheres desde a infância – o que se reflete em toda a sociedade. Ótima matéria-prima para reflexões nesta semana e na vida.

(Utilizando dados contidos no prefácio escrito pela autora para o livro “Cara de uma, espelho da outra – A construção da imagem da mulher pelas jornalistas”, de Marina di Fiore Segre, Fernanda Cabrera e Vanessa Bertolini)

(Crédito da Imagem: Maria Objetiva, Marcha das Vadias de Belo Horizonte, 2013)

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http://www.julianawinkel.com

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