‘Fake news’ e a indústria do engano

Fake news, pós-verdade, robôs, trolls… esses termos fazem parte de um “admirável mundo novo” que nos invade a partir das telas que nos circundam, influenciando de forma definitiva a maneira como recebemos e interpretamos os fatos. A discussão sobre veracidade, parcialidade e resposta da audiência parece ser infindável – mas será que é tão nova assim?

O texto abaixo, tradução livre (com grifos meus) de um artigo da BBC, mostra como a “indústria” do engano não é uma novidade que surgiu com a internet. Aliás, parece ter nascido com a espécie humana – ganhando novas potencialidades com os instrumentos desenvolvidos ao longo dos tempos. É o que mostra uma pesquisa feita bem antes da popularização da web

O homem que estuda a propagação da ignorância

Como pessoas ou empresas com interesses privados espalham a ignorância e ofuscam o conhecimento? Georgina Kenyon descobriu que há um termo que define esse fenômeno.

Por Georgina Kenyon

Em 1979, um memorando secreto da indústria do tabaco foi levado a público. Intitulado Proposta sobre Fumo e Saúde e escrito uma década antes pela empresa de tabaco Brown&Williamson, ele revelou muitas das táticas empregadas pela indústria do tabaco no combate às “forças anticigarro”.

Em um dos trechos mais contundentes do documento, há uma análise sobre como comercializar cigarros para o público em geral: “A dúvida é nosso produto, pois ela é o melhor meio de competir com o ‘corpo de fato’ que existe na mente do público em geral. É também uma forma de estabelecer controvérsia.”

Essa revelação despertou o interesse de Robert Proctor, historiador de ciência da Universidade de Stanford, que começou a investigar as práticas adotadas pelas empresas de tabaco para espalhar confusão a respeito do risco de câncer pelo fumo.

Proctor descobriu que a indústria de cigarros não queria que os consumidores soubessem dos danos causados por seu produto, gastando bilhões para esconder os fatos sobre os efeitos do tabagismo sobre a saúde. Essa busca levou-o a criar uma palavra para o estudo da propagação deliberada da ignorância: a agnotologia.

O termo vem da união de agnosis, palavra grega neoclássica para ignorância ou “não saber”, e ontologia, ramo da metafísica que trata da natureza do ser. Agnotologia é o estudo de atos intencionais que visam espalhar confusão e engano, geralmente para vender um produto ou obter vantagens.

“Eu estava pesquisando como as indústrias poderosas poderiam promover a ignorância para vender seus produtos. Ignorância é poder… e a agnotologia é sobre a criação deliberada de ignorância. Ao olhar para a agnotologia, descobri o mundo secreto da ciência classificada, e achei que os historiadores deveriam prestar mais atenção a isso”.

O memorando de 1969 e as táticas usadas pela indústria do tabaco tornaram-se um exemplo perfeito de agnotologia, diz Proctor. “A ignorância não é apenas o que ainda não é conhecido, mas é também uma manobra política, uma criação deliberada de agentes poderosos que querem que você ‘não saiba’.”

Para auxiliá-lo em sua pesquisa, Proctor contou com a ajuda do linguista Iain Boal, da Universidade da Califórnia em Berkeley. Juntos, eles criaram o termo em 1995, embora grande parte da análise de Proctor do fenômeno tivesse ocorrido nas décadas anteriores.

Ideia de equilíbrio

A agnotologia é tão importante hoje como era quando Proctor estudou o encobrimento de fatos sobre câncer e tabagismo pela indústria do tabaco. Com propósitos políticos, por exemplo, oponentes semearam por muitos meses a dúvida sobre a nacionalidade do então presidente Barack Obama, até que ele revelou sua certidão de nascimento em 2011. Em outro caso, comentaristas políticos na Austrália tentaram incentivar o pânico comparando a classificação de crédito do país com a da Grécia, apesar de haver informações públicas amplamente disponíveis de agências de classificação mostrando que as duas economias são bastante diferentes.

Proctor explica que a ignorância pode, muitas vezes, ser propagada sob o disfarce de um debate equilibrado. Por exemplo, a ideia comum de que sempre haverá duas visões opostas nem sempre resulta em uma conclusão racional. Ela esteve por trás da forma como as empresas de tabaco usaram a ciência para fazer seus produtos parecerem inofensivos, e é usada hoje por negacionistas da mudança climática para argumentar contra as evidências científicas.

“Essa ‘ideia de equilíbrio’ permitiu que os homens da indústria do cigarro, ou atualmente os negacionistas do clima, alegassem que há dois lados em qualquer história, que ‘há controvérsias entre especialistas’ – criando uma falsa imagem da verdade, daí a ignorância.”

Por exemplo, diz Proctor, muitos dos estudos que ligam carcinógenos ao tabaco foram conduzidos inicialmente em camundongos – ao que a indústria de tabaco respondeu dizendo que estudos em camundongos não significavam que as pessoas estivessem em risco, apesar dos resultados de saúde adversos em muitos fumantes.

Uma nova era de ignorância

“Vivemos em um mundo de ignorância radical – e o mais incrível é que qualquer tipo de verdade compete com o barulho”, diz Proctor. “Mesmo que o conhecimento seja ‘acessível’, não significa que seja acessado.”

“Em relação a muitas coisas, o conhecimento é algo trivial – como, por exemplo, o ponto de ebulição do mercúrio – mas em questões mais amplas, de importância política e filosófica, o conhecimento das pessoas vem frequentemente da fé, da tradição ou da propaganda, mais do que de qualquer outra fonte“.

Proctor descobriu que a ignorância se espalha, em primeiro lugar, quando um grande número de pessoas deixa de entender um conceito ou fato e, em segundo lugar, quando grupos com interesses específicos (como uma empresa comercial ou um grupo político) então trabalham duro para criar confusão sobre a questão. No caso da ignorância sobre o tabaco e as mudanças climáticas, uma sociedade cientificamente analfabeta provavelmente será mais suscetível às táticas usadas por aqueles que desejam confundir e nublar a verdade.

Considere a mudança climática como um exemplo. “A luta não é apenas sobre a existência da mudança climática, é sobre se Deus criou a Terra para que possamos explorá-la, se o governo tem o direito de regulamentar a indústria, se os ambientalistas devem ter autoridade e assim por diante. Não é apenas sobre os fatos, é sobre o que se imagina que venha deles ou que contribua para eles”, diz Proctor.

“Fazendo” nossas próprias cabeças

Outro estudioso da ignorância é David Dunning, da Universidade de Cornell. Dunning adverte que a internet está ajudando a propagar a ignorância. “É um lugar onde todos têm a chance de ser seus próprios especialistas”, diz ele, “o que os torna presas de poderosos interesses à espreita para espalhar deliberadamente ignorância”.

“Enquanto algumas pessoas inteligentes se beneficiam de todas as informações que, agora, estão a apenas um clique de distância, muitas outras serão induzidas a um falso senso de especialização. Minha preocupação não é que estejamos perdendo a capacidade de ‘formar’ a nossa própria mente, mas que esteja se tornando muito fácil fazê-lo. Devemos nos consultar com os outros muito mais do que imaginamos. As outras pessoas podem ser imperfeitas também, mas suas opiniões contribuem muito para corrigir nossas próprias imperfeições, assim como nosso conhecimento imperfeito ajuda a corrigir seus erros“, adverte Dunning.

Dunning e Proctor alertam para o fato de que a propagação voluntária da ignorância correu desenfreada em todas as primárias presidenciais dos EUA, em ambos os lados do espectro político. “Donald Trump é o exemplo atual mais óbvio nos EUA, sugerindo soluções fáceis para os seguidores, muitas delas inviáveis ou inconstitucionais”, diz Dunning.

Assim, embora a agnotologia tenha tido suas origens no auge da indústria do tabaco, hoje a necessidade de uma palavra para o estudo da ignorância humana é mais forte do que nunca.

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Comunicação: como falar de assuntos “espinhosos”

Ou: um guia para a comunicação das mudanças climáticas

Quem trabalha na área de comunicação, especialmente ligada a setores de mobilização social, enfrenta sempre o desafio de aproximar os leitores — já que, na maioria das vezes, o sucesso de uma causa depende da conscientização, ação e pressão populares. Essa pode ser uma tarefa ainda mais difícil se o tema em questão estiver ligado a conceitos científicos ou normalmente discutidos em linguagem técnica — como, por exemplo, as mudanças climáticas. Foi pensando nisso que o Centro de Pesquisas sobre Decisões Ambientais da Universidade de Columbia desenvolveu o guia A Comunicação das Mudanças Climáticas, voltado a todos os interessados em encurtar a distância entre a informação correta e seu público. A publicação reúne dicas importantes que, para além do setor ambiental, podem ser utilizadas como base de toda boa estratégia de comunicação.

Veja um resumo de algumas delas:

  • Conheça sua audiência: este requisito é fundamental para comunicar qualquer coisa — e se torna ainda mais estratégico ao tratar de temas de amplo alcance como a mudança do clima. Ao ter contato com informações complexas, as pessoas costumam recorrer a modelos mentais pré-determinados que as auxiliem a definir riscos, ações e comportamentos. Ao mesmo tempo, tendem a procurar informações que confirmem esses modelos. Procure, então, descobrir quais equívocos o público traz em seus modelos mentais sobre o assunto e substitua-os por fatos novos, atualizados.
  • Conquiste a atenção do público: as pessoas se sentem mais motivadas quando seus objetivos coincidem com seu perfil pessoal. Prepare conteúdo identificado com as subculturas de cada grupo (crenças, etnia, classe, idade, gênero, profissão, etc.), destacando o papel determinante que cada um exerce ao se mobilizar para o tema.
  • Transforme informações científicas em experiência concreta: psicologicamente, riscos distantes não disparam o mesmo alarme que riscos imediatos. Ao mesmo tempo, imagens vívidas, metáforas, relatos pessoais, analogias com o mundo real e comparações concretas ajudam a trazer o tema para perto das pessoas. Ao falar sobre mobilização, reforce a ideia de que cada ação imediata trará grandes ganhos no futuro. E, quando for necessário usar termos científicos, procure contextualizá-los e explicá-los.
  • Evite apelo emocional excessivo: Discursos inflamados ou repetitivos, muitas vezes, podem produzir efeito contrário ao pretendido, aumentando a dúvida ou a incredulidade e “anestesiando” a audiência em relação ao assunto. Dessa forma, seja objetivo em relação a dados: ajude o público a entender os graus de certeza ou incerteza de cada cenário. Em reuniões presenciais, deixe as pessoas à vontade para discutir e tirar dúvidas.
  • Incentive a mobilização pela mudança de hábitos: quando se trata de ações cotidianas, as pessoas muitas vezes adotam ações isoladas sem observar o quadro geral de seus hábitos (por exemplo, trocar as lâmpadas por opções de baixo consumo, mas não atentar para processos possíveis de reuso da água ou de alimentos). Ou muitas vezes seguem, sem questionar, as opções padrão da comunidade. Para mudar isso, destaque a importância de uma visão sistêmica de ação e estimule a busca de novas opções que sejam socialmente benéficas, por meio de políticas públicas que envolvam toda a sociedade — por exemplo, o incentivo à produção de energia renovável, o uso de materiais biodegradáveis, a luta pela implantação de coleta seletiva e outros.

A escolha das estratégias corretas de comunicação pode fazer a diferença no alcance de seus projetos. Para conhecer em detalhes as sugestões do guia, baixe a publicação completa neste link!

Com dados de artigo da autora publicado na Agência Jovem de Notícias

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